Últimos Comentários

Jose Sa   

Claro que o sistema das estrelinhas vale o que vale, mas eu até lhe dava mais. E o Tó Zé sempre t... Lêr mais »

Miguel   

nao sabia que o livro do Toze era pornografico, agora ainda estou mais curioso para ler! :D

Sara Franco   

O texto do José Pinto de Sá é lindo!!

Amelia Resende   

Um grande beijinho para ti!Ele faz me muita falta,como sabes! tentei deixar comentário no outro sí... Lêr mais »

Carlos Gouveia Melo

Senhores, Senhoras,

Gostaria de estar presente mas a agenda não mo permite.

Assim pedi à minha amiga Teresa Palma Fernandes que lesse estas palavras escritas por mim em intenção do homem bom Costa Afonso.

Muito obrigado.

Quando conheci o Costa Afonso ele era deus. Ignoro se depois deixou de sê-lo, embora nos encontrássemos algumas vezes. Mas se no início nunca questionei a sua profissão divina - "aí vem o deus Afonso!" - diziam todos - mais tarde, seria então ele já deus maduro, dei por adquirido que assim continuaria.

A divindade do Costa Afonso não exigia sacrifícios.

Gostava de falar e satisfazia-se desde que o ouvissem.

A sua fala era diluviana, caótica, pletórica.

Ao seu lado o silêncio recolhia-se envergonhado e tão pouco tinha a justificação de que fora preterido por palavras vãs: o Costa Afonso dizia.

Falava disto, daquilo e do Outro, e, tal como um deus, submetia tudo e todos a seu juízo, sem pudor nem hesitações.

E se não sabia, recriava: poderia um deus fazer doutra maneira?

Eu, que sou tímido, e gago, e tenho medo das apresentações, adorava estar ao lado do Afonso e daqueles para quem ele falava: ao lado do deus, a minha pessoa não se notava e podia enfim ficar quieto, pensar no que quisesse ou mesmo fazer de conta, porque nesse entretanto só as palavras do deus orador contavam: e o Costa Afonso não prometia coisa alguma, não queria nenhum posto, não ambicionava o voto de ninguém: existia, apenas, e este "apenas" enchia lá onde estivesse como só os deuses conseguem. Aliás o Costa Afonso - ou não fosse mesmo deus - estava sempre em toda a parte: Europa, América, África, China ... o Afonso vestia o mundo como o comum cidadão a camisa. A negra, a da longa noite salazarista, essa tenebrosa camisa de forças, fê-lo a ele refugiar-se em Bruxelas. Encontrei-o por lá no início dos anos setenta. Andava eu pelos meu~ vinte anos e ele nos dele. Mas que importa? Os anos passam, a vida transmuta-se e o movimento é que continua. E o Costa Afonso que conheci jovem deus, oferece-nos agora um livro - palavras que cozeu em folhas - e fez-se leitura. Edificante? Respeitadora?

Libertária, sem dúvida.

O deus Afonso nunca quis crentes.

Carlos Gouveia Melo

 

Lisboa, 20 de Fevereiro de 2010