Últimos Comentários

Jose Sa   

Claro que o sistema das estrelinhas vale o que vale, mas eu até lhe dava mais. E o Tó Zé sempre t... Lêr mais »

Miguel   

nao sabia que o livro do Toze era pornografico, agora ainda estou mais curioso para ler! :D

Sara Franco   

O texto do José Pinto de Sá é lindo!!

Amelia Resende   

Um grande beijinho para ti!Ele faz me muita falta,como sabes! tentei deixar comentário no outro sí... Lêr mais »

José Pinto de Sá

É bem sabido que, falemos do que falarmos, é sempre de nós próprios que falamos. Posto isto, um morto dá jeito, porque a complexidade de uma existência é tal que permite todas as leituras. Cada um de nós tem o seu Tó Zé, e nenhum é mais verdadeiro que os outros, nenhuma das evocações possíveis é mais legítima que outra qualquer. Queiramos ou não, estamos condenados a escolher uma recordação dele e a deixar de lado as outras todas. Não por esquecimento, nem sequer por falta de tempo, mas porque é esse o Tó Zé que queremos guardar connosco, agora que ele está liberto deste vínculo.

Mas que Tó Zé? O mao-spontex ou o neo-liberal que apoiou a invasão do Iraque? (“Pois!” disse-me ele uma vez. “Por vossa vontade, andávamos todos de burka.”) O manifestante fisicamente timorato ou o polemista dotado de uma incrível coragem intelectual? O Deus-Afonso ou o ser fragilizado que foi bater-me à porta, em Maputo, destroçado pelo fim da relação com a Tona?      

Condenado, pois, a escolher um Tó Zé, optei por aquele que mais amei. Portanto, não há qualquer inocência no que eu possa aqui dizer.

Conheci-o em princípios de 1969, tinha eu 20 anos e ele 19. Vivíamos a ressaca do Maio, firmemente convictos de que se tratara do acontecimento político mais importante desde a revolução neolítica, como viria a dizer Raoul Vaneigem com a proverbial imodéstia dos Situacionistas. Eu tinha sido expulso da Inglaterra literalmente sem uma moeda no bolso, e fui parar à Bélgica, a casa de um refugiado português, num terceiro andar em Ixelles. Um belo dia bateram à porta. Fui abrir e deparei com um rapaz gordinho, de fato cinzento e cabelo curto, arrastando atrás uma enorme mala Samsonite vermelha. Estendeu-me a mão e perguntou-me: “- És o José Pinto de Sá? Já ouvi falar de ti. Eu sou o Costa Afonso e venho-te convidar para irmos pegar fogo à Maison du Portugal, na Cité Universitaire, em Paris.” É claro que aceitei de imediato, e convidei-o a entrar. Quando chegámos lá acima, abriu a mala. Trazia tudo o que era preciso: um rolo de papel de cenário para fazer jornais murais e uma peça de pano vermelho para fazer bandeiras; sprays de tinta de várias cores, vários exemplares do Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung... Acabámos por nunca incendiar a Maison du Portugal, mas iniciámos naquele instante uma relação que, durante 40 anos, entre ventos e marés, entre carinhos e amuos, viria a marcar para sempre as nossas existências.

Desses quarenta anos, quero aqui recordar os primeiros cinco, cuja intensidade chegou para sustentar os outros trinta e cinco. Foram os anos da politização à outrance, da crítica radical da sociedade capitalista. Vivêmo-los em contestação permanente – como então se dizia - de cidade em cidade, de manif em manif, a apedrejar polícias e a vandalizar universidades.

“A luta de classes é tão intensa que não tenho tempo para foder,” dizia o Tó Zé nessa fase, quando algum de nós se metia com ele por não ter namorada. Porém, não tardaria a alargar ao sexo o exercício da política. Em 1970 regressa fugazmente a Lisboa, semeia a agitação na faculdade de Direito, e volta para França com a Lena. Metamorfoseado, deslumbrado com as asas multicolores que de súbito lhe tinham crescido.

Fui visitá-los a Massy-Palaiseau, nos arredores de Paris, onde tinham alugado um apartamento. Recebiam nus, na cama. Achei-os lindíssimos, e arrisco-me a dizer que nunca o vi tão feliz como nesses dias. Os amigos sentavam-se na beira do colchão para as longas conversas do costume, intercaladas de pausas quando o desejo os acometia.

Como sempre que uma ideia o fascinava, o Tó Zé procurava a todo o custo partilhá-la com os outros, e envolvê-los nessa descoberta. Assim foi com o sexo também. Em minha casa em Saint Maur, no Val de Marne, as nossas “conversas das 5 da manhã” desembocavam invariavelmente em projectos de “ménage à n”, quando n tende para o infinito. Saíamos antes do alvorecer para roubar pacotes de leite das paletes, diante dos supermercados. Está no livro. Está tudo no livro, para quem souber ler.

Andávamos nus pelo minúsculo apartamento e íamos nesses propósitos à varanda, que dava para os escritórios de um qualquer serviço do Estado, cujos funcionários já se tinham habituado a ver-nos “mostrar os colhões à repartição”, como o Tó Zé dizia. À tarde, a Evelyne e a malta de Saint Maur apareciam por lá, depois das aulas, e levavam-nos croissants e latas de conserva. Se tínhamos dinheiro para os tickets íamos até Vincennes almoçar à cantina universitária, com o chão juncado de papelada política e as paredes cobertas de graffiti. Lembro-me de um relógio eléctrico com o mostrador borrado a spray e uma inscrição ao lado a dizer: “Abaixo a hora, unidade do tempo alienado”.

Um dia apareceu-me diferente. Já não o via há uns tempos; um de nós tinha viajado, creio eu. “Tomei um ácido,” anunciou-me à queima-roupa. “E então?” perguntei-lhe. “Não se pode explicar,” respondeu-me. Estranhei, e percebi que o caso era sério. Nunca o tinha visto sem palavras, e acho que nunca tornei a ver.

Nos meses que se seguiram, fartei-me de tripar. Mudámo-nos para Bruxelas, já não sei porquê. Arranjei emprego num bar chamado Le chien qui rit, que se tornou uma espécie de quartel-general onde a malta aparecia fora de horas. Já morreram quase todos. A Matilde acabou com uma overdose. O Helder e o Faustino suicidaram-se. E o Zé Álvaro Morais, e o Al Berto, que na altura era pintor e depois se voltou para a poesia (o “Al espera pouco Berto”, como o Tó Zé lhe chamava). E o Zé Maria, que morreu há dias…

Vivíamos entre trips e viagens. Lembro-me de uma, às Baleares. Dormimos no deck, ao ar livre; de manhã, ao chegarmos a Menorca, havia golfinhos a brincar nas vagas, junto à proa do ferry. E lembro-me de atravessarmos a Espanha no velho 2 CV, entre campos brancos de geada; eu e a Lena revezávamo-nos ao lado do Tó Zé, sempre a falarmos, para ele não adormecer ao volante. A Mafalda, ainda bebé, ia atrás, no sono dos inocentes.

Depois, um dia cordei e saí à rua, e nos quiosques da Chaussée d’Ixelles as manchetes dos jornais anunciavam um golpe de Estado em Portugal. “Foi o 25 de Abril que fodeu tudo,” resumiria mais tarde um de nós; o Jorge “Olhos de Gato”, acho eu. Em poucos dias o grupo desfez-se e voltámos às raízes, à prisão de pertencer. Eu e o Big Joe fomos para Moçambique; o Tó Zé regressou a Portugal, para um encontro com a Comissão Inter-galáctica, algures em Sintra. Nos trinta anos seguintes vimo-nos muitas vezes, mas nunca mais nada foi como dantes.

Quando a Mafalda me convidou para dizer algumas palavras na apresentação do livro do Tó Zé (um projecto de que o ouvi falar durante 40 anos), fiquei atrapalhado e comovido. Afinal de contas, em seis décadas de vida não há muitas pessoas que eu tenha amado tanto, e talvez nenhuma que tenha influenciado a tal ponto a formação do meu pensamento. Na festa do funeral do Tó Zé, a Dot disse-me: “Não sei o que teria sido a minha vida se não vos tivesse conhecido”. E eu faço minhas essas palavras, em relação ao Tó Zé. É o mínimo que posso dizer.

 

Lisboa, 20 de Fevereiro de 2010.